Grafiteiros, pichadores e MP não acreditam na coibição da venda.
Lei proíbe comércio das tintas para menores a partir desta quinta (26).
A tinta em spray é um produto que "quase não é usado em pichações", disse nesta quinta-feira (26) o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), Dilson Ferreira. A lei 12.408, que foi sancionada pela presidente Dilma Roussef e publicada nesta quinta, proíbe a comercialização de tintas em embalagens aerossol a menores de 18 anos. O texto também prevê que a prática de grafite como manifestação artística não se configura crime.
Quem descumpri-la estará sujeito a multas, advertências e apreensões. Fabricantes, importadores e distribuidores de produtores terão até 180 dias para fazer as alterações nas embalagens, segundo o governo.Agora, a venda de tinta em spray poderá ser feita apenas a maiores, mediante apresentação de documento de identidade. O texto obriga o comerciante a colocar na nota fiscal o nome do comprador. As embalagens também terão que conter, de forma legível e destacada, a seguinte expressão: “Pichação é crime (Art. 65 da Lei nº 9.605/98). Proibida a venda para menores de 18 anos”.
Segundo Ferreira, a tinta em spray é um produto de boa qualidade, que não deve ser demonizado. “É um produto muito pouco usado na pichação. [O spray] é usado mais para artes, artesanatos, retoques de pinturas em residências, automóveis e bicicletas.”
“Se tiver tinta e rolinho, vai pichar do mesmo jeito, a tinta látex é bem baratinha e muita gente tem em casa”, afirmou o produtor de vídeo Djan Ivson, de 27 anos, pichador há 15.
Apesar de aprovar a lei, o presidente da Abrafati acredita que há ainda muito a ser feito. “[É preciso] uma ação coordenada da sociedade, de policiamento, das entidades sociais que lidam com menores pichadores. Eles têm que entender o lado negativo dos que estão fazendo."
Ivson diz acreditar que a norma é inútil. “Tem pichador de toda a idade, e o maior pode comprar para o menor”, disse. “O máximo que vai acontecer é a fiscalização em cima de vendedores. Só vai ser novidade para os comerciantes. A pichação vai continuar, independente disso.”
Opinião semelhante tem o promotor de Infância e Juventude de São Paulo Tales Cezar de Oliveira. “Com toda a honestidade, essa lei é uma das coisas mais absurdas que já vi. Um maior de 18 anos vai lá e compra o spray. Não conseguimos coibir a venda de bebida alcoólica, imagina a de spray.”
Para ele, em alguns estabelecimentos que não emitem nota fiscal o comércio para menor de 18 anos não tem como ser coibido. Ele disse que a lei vai dificultar a vida de comerciantes e cidadãos. “E se meu filho, por exemplo, tiver que fazer trabalho na escola e se eu não estiver presente para compra? Eu teria que me deslocar para fazer isso. Vai prejudicar o comerciante e cidadão honesto.”
A educação seria uma saída mais prática e cabível, de acordo com o promotor. “Não é a lei proibindo que vai alterar a situação. [...] Até porque não se picha só com spray, mas com tintas, e essas pichações são com pincéis. Vai se proibir também a venda de pincéis?”
‘Pichação é crime, grafite não’
A lei de crime ambiental afirma que pichação é ilegal. O adolescente flagrado cometendo a infração é encaminhado para o Ministério Público, que o representa e lhe aplica uma medida socioeducativa, como prestação de serviços ou reparação de danos, como pintar o muro que pichou.
A lei de crime ambiental afirma que pichação é ilegal. O adolescente flagrado cometendo a infração é encaminhado para o Ministério Público, que o representa e lhe aplica uma medida socioeducativa, como prestação de serviços ou reparação de danos, como pintar o muro que pichou.
Em contrapartida, a lei diz que a prática de grafite realizada “com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística” não é crime. Segundo o pichador Ivson, com a lei o grafite vira outra coisa, já que o grafiteiro deixa de ter liberdade de expressão e acaba ficando “domesticado”.
“A pichação e o grafite são dois movimentos distintos, porém têm a mesma vertente que é a liberdade de expressão. É uma intervenção de uma forma libertária sem o aval do dono do muro, que é sair com a tinta na rua e se apropriar de qualquer suporte da cidade, como parede, porta, muro”, disse.
O muralista Eduardo Kobra, criador de diversos painéis em São Paulo, como o que adorna um muro na Avenida 23 de Maio, concorda ao afirmar que o grafite, para ser um grafite, tem de ser ilegal. “Esse é o grafite autêntico. O pichador também faz de forma ilegal. A partir do momento que se gera autorização, não é mais grafite, é uma pintura, um mural. O trabalho que faço é mais pintura mural, só faço com autorização”, disse Kobra, ex-grafiteiro e ex-pichador. Ele também disse acreditar que a lei não vai funcionar, pois uma pessoa mais velha pode comprar para o mais novo.
Medidas
Antes mesmo da nova lei, alguns comércios de material de construção já tomam providências contra os pichadores. Grandes mercados deixam esse tipo de tinta fechado em armários. O cliente precisa pedir para um dos vendedores abrir o cadeado para ter acesso ao material.
Antes mesmo da nova lei, alguns comércios de material de construção já tomam providências contra os pichadores. Grandes mercados deixam esse tipo de tinta fechado em armários. O cliente precisa pedir para um dos vendedores abrir o cadeado para ter acesso ao material.
Outros comércios evitavam vender sprays para crianças e adolescentes. “Já fui vítima de pichação. Estragaram toda a frente da minha loja. Por isso, sou a favor dessa lei”, disse o comerciante Ernesto Sforzin, de 66 anos, dono de um estabelecimento na Mooca, na Zona Leste de São Paulo.
Sforzin afirmou que orienta seus funcionários a não vender para crianças. “Agora, com a lei, vou passar a pedir identidade.” Para o comerciante, a fiscalização será fácil, pois a maior parte dos compradores é composta por empresas que fazem grandes encomendas. “São poucas as pessoas que compram no balcão.”
Tinta spray tem venda proibida a menores de 18 anos nos país (Foto: Paulo Toledo Piza/G1)
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